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FOTOGRAFIA

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A fotografia não é a prática central de Paula Marcondes.

 

Em cada fotografia, a câmera permanece invisível. Ninguém olha diretamente para a lente. Nada é belo ou perfeito. O trabalho busca o que está presente mas passa despercebido. A esperança é simples: que quem olhar para estas fotografias comece a notar algo que ainda não tinha visto, ou passe a ver algo familiar de uma forma diferente.

 

Fotógrafo Ed Ruscha disse “Fotografia é apenas um playground para mim. Não sou fotógrafo.” Para Paula, a câmera é um instrumento entre muitos: para capturar ideias, momentos e observações que têm a ver com sua pesquisa sobre consciência, conexão e cura, antes de transformá-los em outras formas.

 

Robert Rauschenberg, outra influência no trabalho de Paula, descreveu a fotografia como algo que aguçava seu “desejo de olhar” e como “fertilizante para promover crescimento e mudança em qualquer projeto artístico.” Ele dobrava suas próprias fotografias dentro dos Combines, serigrafias e colagens: fragmentos reaparecendo em escalas diferentes, invertidos, sobrepostos. A fotografia como material, não como ponto de chegada.

 

Paula trabalha no mesmo espírito. Uma fotografia feita na Groêlândia reaparece numa instalação da série Kitsch Glitz. Vídeos feitos em Montana tornam-se a origem da série Amplify.

 

Arctic Trails (Groêlândia, 2019) documenta o que existe nas margens de uma das paisagens mais remotas do mundo: os vestígios da presença humana que coexistem com a natureza intocada.

 

Williamsburg Sessions (Nova York, 2019) documenta um bairro em transformação: fábricas reimaginadas, velhas estruturas encontrando novas vidas. A câmera como testemunha do que está em processo de se tornar outra coisa.

 

Singapore Overexposed (Singapura, 2019/2021) apresenta cenas comuns do cotidiano em negativo. As sombras sempre estiveram presentes. A pandemia as tornou visíveis.

 

Suas fotografias existem por si mesmas como obras individuais, e também informam tudo que vem depois.

 

A câmera e o celular são o ateliê portátil. Onde um ateliê físico não pode viajar, eles podem.

Trilhas do Ártico, 2019

Groêlândia, 2019.

 

Paula esperava encontrar paisagem intocada. Viu tanques de petróleo ao lado dos fiordes. Viu uma baleia orca servida inteira aos cães de trenó, espingardas vendidas na loja da aldeia ao lado de chiclete. Uma forma de vida que sustenta comunidades árticas há milhares de anos: nada desperdiçado, tudo em relação com a natureza.

 

Viu uma base americana abandonada da Segunda Guerra Mundial num fiorde remoto. Os americanos que viajavam com ela viram lixo. Ela viu o sacrifício de homens que passaram anos naquele lugar isolado, longe de tudo que conheciam. A base não existe mais. Foi demolida no ano seguinte. O que a sociedade descartou, as fotografias preservam.

 

Todo lugar, como toda pessoa, é sombra e luz.

 

A câmera permaneceu invisível. Ninguém olha diretamente para a lente. Nada é belo ou perfeito. Apenas o que estava realmente lá.

Williamsburg Sessions, 2019

Williamsburg, Brooklyn, 2019.

 

Um bairro em transformação: fábricas reimaginadas, cais recuperados, velhas estruturas encontrando novas vidas. A chaminé que pertencia a uma fábrica agora se ergue em um parque. A refinaria de açúcar tornou-se outra coisa inteiramente. Três pontes ao fundo, o rio entre elas.

 

Belo e imperfeito. Tudo está em processo de se tornar outra coisa. Todo lugar, como toda pessoa, é sombra e luz.

 

A câmera permaneceu invisível. Ninguém olha diretamente para a lente. Nada é belo ou perfeito. Tudo está em processo de se tornar outra coisa.

Singapura Superexposta, 2019-2021

Singapura, 2019-2021.

 

Cenas comuns do dia a dia: um varal secando ao sol, escadas em Tiong Bahru, guarda-chuvas num portão, mulheres em Chinatown, os HDBs onde a maioria dos singaporenses realmente vive. Nada dramático. Nada encenado.

 

E então, a pandemia. O mundo foi forçado a ver o que sempre esteve lá. Paula voltou a estas imagens e as apresentou em negativo: não para mostrar o que se perdeu, mas para mostrar o que estava invisível. As sombras sempre estiveram presentes. A pandemia as tornou visíveis.

 

Todo lugar, como toda pessoa, é sombra e luz.

 

A câmera permaneceu invisível. Ninguém olha diretamente para a lente. Nada é belo ou perfeito. Apenas o que existia antes de o mundo mudar.

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