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TEXTOS CRÍTICOS

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Curadora Rejane Cintrão | Instalação Pipa | Galeria Tato, 2025 

Esta página reúne textos escritos sobre o trabalho de Paula Marcondes por curadores, críticos e profissionais das artes.

Cada texto representa uma leitura independente da prática, escrita a partir de uma perspectiva e de um momento distintos.

Rejane Cintrão, 2025
 

Rejane Cintrão é uma das curadoras e pesquisadoras de arte mais experientes do Brasil. É Mestre em História da Arte pela ECA-USP e atua nas áreas de curadoria, produção executiva e pesquisa em arte contemporânea desde 1983. Foi Curadora Executiva do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) de 1993 a 2005, Curadora Assistente da 21ª Bienal de São Paulo em 1991, e assessora do setor de exposições temporárias e do departamento de vídeo do Museu de Arte Contemporânea da USP de 1984 a 1991. Foi membro fundadora do Grupo de Estudos de Curadoria do MAM, ao lado de curadores que se tornaram figuras centrais da arte contemporânea brasileira. Realizou exposições em instituições como MAM-SP, Itaú Cultural, Instituto Figueiredo Ferraz, e internacionalmente no Museo de Guadalajara, México, e em Bruxelas, Bélgica. É fundadora do Programa Novos Curadores (2010–2012) e autora de Algumas Exposições Exemplares: as salas de exposição na São Paulo de 1905 a 1930 (Zouk Editora, 2011). Lecionou na Faculdade Santa Marcelina, PUC São Paulo e Faculdade de Belas Artes, São Paulo. Este texto foi escrito em 2025 no contexto da participação de Paula Marcondes na Clínica para Artistas da Galeria Tato, São Paulo.

 

Paula Marcondes

Paula é uma paulistana artista do mundo. Sua vida acontece entre São Paulo, sua cidade natal e de coração, Cingapura, onde ministra cursos de comunicação para diversas empresas internacionais há 30 anos, Inglaterra, onde vivem seus filhos, e Montana, nos Estados Unidos, onde vive seu marido.

Sua vida internacional começou nos anos 90 quando foi para a Australia para um casamento de uma amiga. De lá, migrou para a Ásia (seu filho nasceu em Singapura em 2002 e sua filha nasceu na Coréia em 2006), onde permaneceu por muitos anos, trabalhando na área de direito e, depois, abrindo sua empresa especializada em cursos de comunicação. Depois de perder sua mãe durante a pandemia (de quem não pôde se despedir), e após seus filhos estarem encaminhados nos estudos, Paula fixou seu ateliê em São Paulo, no apartamento onde também reside quando está em São Paulo, onde alguns trabalhos são dedicados à sua mãe, paisagista que implementou projeto de Burle Marx na FIESP.

A produção artística de Paula teve início em 1995 na La Salle School of Arts, Singapura, quando se dedicou a pinturas. Posteriormente, estudou fotografia com Tom White e pintura multimídia com Patrícia Caballero. Começou a se dedicar com mais afinco à sua produção artística quando perdeu a mãe, como forma de expressar sua angústia. Ao mesmo tempo, seu negócio com os cursos de comunicação cresceu. A artista emergiu em meio à perda da mãe, a pandemia, um câncer de mama e o sucesso em uma área que lhe trazia benefícios financeiros, não a satisfazia totalmente.

Com raiz na arte pop internacional, os trabalhos de Paula transitam entre fotografia, pintura, colagem, objeto e instalação. Assim como os artistas pop nos anos 60 e 70 se inspiravam nos gibis daquelas décadas, a artista reúne referências de sua infância no rigoroso colégio alemão Porto Seguro, entre histórias em quadrinhos da sua infância no Brasil durante os anos 1980 com personagens como Mônica e Cebolinha, Astérix e Obelix, Calvin, entre outros, e da convivência com arte por meio de sua mãe.

Suas obras construídas com objetos encontrados como telas de computadores e celulares, placas de computadores, entre outros coletados nos lixos de São Paulo, em especial nas áreas onde se concentram os comerciantes asiáticos, trazem questões ligadas à sustentabilidade, comunicação, memória e o corpo. Se o coração era o órgão mais presente em seus trabalhos dos últimos anos, o umbigo — cicatriz deixada após o corte do cordão umbilical que liga a mãe ao feto —, aparece em sua mais recente produção. Os irônicos títulos “xadrez”, “esconde esconde”, “dominogame”, nos remetem às bem-humoradas obras de Nelson Leirner e Marcel Duchamp.

Sua poética une referências internacionais como Robert Rauschenberg, Jim Dine e Cornelia Parker, por exemplo, à cultura brasileira, como o feijão e arroz, a resina brasileira que utiliza em seus trabalhos, as pipas tão presentes nas periferias e nas praias do Brasil, o jeitinho brasileiro de montar e juntar as coisas.

Como diz a própria artista: “Minha obra emerge de um gesto de escuta e ressignificação. Em tempos de hiperconexão e excesso, convido o espectador a olhar para o que foi descartado — não apenas materiais, mas experiências, afetos, memórias. Telas de celulares inutilizadas, fragmentos do cotidiano digital, tornam-se suportes sensíveis de uma poética que atravessa o objeto, a imagem e o espaço. Minha pesquisa se ancora nos temas da consciência, conexão, desconexão e cura, propondo um percurso que não busca respostas prontas, mas a ativação do campo da dúvida, da presença e do possível. Ao transitar entre linguagens como instalação, pintura, fotografia e vídeo, busco construir uma prática que é, ao mesmo tempo, material e meditativa — um convite para ver o que ainda pulsa nas sobras do mundo.

O trabalho de Paula reflete sua vida repleta de dicotomias: viver entre o ocidente e o oriente, ser brasileira e conviver com outras culturas, viver entre a cidade e a natureza, entre o mundo digital e o analógico, entre consumo e sustentabilidade.

Rejane Cintrão

2025

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